Estudo realizado por pesquisadores da Unesp, USP e UFSCar identificou quatro linhagens promissoras e mostrou que a genética pode desempenhar papel decisivo na capacidade das sementes de suportar o ataque de uma das principais pragas da soja.
Uma descoberta brasileira pode abrir um novo caminho para enfrentar um dos grandes problemas das lavouras de soja.
Pesquisadores identificaram quatro linhagens de soja tolerantes à infestação por percevejos, insetos capazes de provocar perdas de produtividade e, principalmente, comprometer a qualidade dos grãos e sementes.
O trabalho foi apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e realizado por pesquisadores ligados à Universidade Estadual Paulista (Unesp), Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) e Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Os resultados foram publicados na revista científica Pest Management Science.
A descoberta ainda não significa que uma nova cultivar comercial esteja disponível para o produtor.
Mas representa um passo importante para que o melhoramento genético possa, no futuro, entregar variedades capazes de conviver melhor com a pressão dos percevejos.
QUATRO LINHAGENS CHAMARAM A ATENÇÃO DOS PESQUISADORES
O trabalho analisou duas linhagens parentais — uma tolerante e outra não tolerante aos percevejos — além de 12 linhagens recombinantes, obtidas a partir do cruzamento dos parentais.
O objetivo não era simplesmente descobrir qual planta apresentava o melhor desempenho em uma situação específica.
Os pesquisadores queriam entender quais características permaneciam mais estáveis quando a soja era submetida a ambientes e níveis diferentes de pressão das pragas.
Ao final, quatro linhagens apresentaram características consideradas promissoras em relação à tolerância.
Esse tipo de informação pode posteriormente ser utilizado por programas de melhoramento para selecionar materiais que combinem produtividade, qualidade de sementes e maior capacidade de suportar o ataque.
TESTES FORAM REALIZADOS EM DOIS AMBIENTES
Um dos pontos fortes do trabalho foi justamente tentar aproximar o experimento das condições encontradas no campo.
Os testes foram realizados em duas regiões paulistas.
Uma área experimental estava na Fazenda Lageado, da Unesp, em Botucatu.
A outra estava na estação experimental da Esalq-USP em Anhumas, Piracicaba.
A escolha não foi aleatória.
Botucatu possui maior altitude e clima mais ameno, enquanto a região de Anhumas apresenta menor altitude e ambiente mais quente.
A intenção foi verificar como os materiais responderiam diante de condições ambientais distintas.
COM INSETICIDA E SEM INSETICIDA
Os pesquisadores adicionaram outra variável fundamental.
Em cada ambiente foram avaliadas plantas com e sem aplicação de inseticidas.
Isso criou, na prática, quatro cenários diferentes de avaliação.
As aplicações químicas não ocorreram simplesmente em calendário fixo. Elas foram realizadas conforme o monitoramento da população de pragas.
O tradicional método do pano de batida foi utilizado para verificar a presença dos percevejos. Para produção de sementes, a referência considerada no trabalho foi de um percevejo por metro quadrado para indicar necessidade de intervenção.
E a pressão das pragas foi significativa.
Em Anhumas, o pico chegou a aproximadamente cinco percevejos por metro quadrado.
Em Botucatu, chegou próximo de três por metro quadrado.
Isso permitiu avaliar os materiais sob uma situação real de estresse.
QUATRO ESPÉCIES DE PERCEVEJOS FORAM ENCONTRADAS
Os pesquisadores detectaram quatro espécies nas áreas experimentais:
Nezara viridula;
Piezodorus guildinii;
Diceraeus melacanthus;
Euschistus heros.
Entre elas está o conhecido percevejo-marrom (Euschistus heros), uma das pragas mais importantes das lavouras brasileiras.
Os percevejos tornam-se especialmente problemáticos porque atacam estruturas reprodutivas da soja.
Ao se alimentarem das vagens e sementes, podem comprometer rendimento e qualidade, afetando peso, vigor e capacidade germinativa.
Para produtores de sementes, o problema ganha dimensão ainda maior.
GENÉTICA MOSTROU FORTE INFLUÊNCIA
Talvez uma das descobertas mais interessantes do estudo esteja na qualidade das sementes.
Os pesquisadores avaliaram oito características fisiológicas relacionadas à germinação, vigor e longevidade.
Os resultados indicaram que a genética possui forte influência sobre a longevidade das sementes quando submetidas a diferentes níveis de infestação por percevejos.
Já características relacionadas ao vigor inicial apresentaram influência ambiental mais acentuada.
Essa diferença pode ter implicações importantes para futuros programas de melhoramento.
A longevidade poderá eventualmente funcionar como mais um indicador para selecionar plantas capazes de produzir sementes de melhor qualidade mesmo sob pressão de pragas.
O QUE SIGNIFICA UMA SEMENTE MAIS LONGEVA?
Não se trata simplesmente de uma semente permanecer viva por mais tempo.
Para o produtor, o que interessa é preservar vigor.
Uma semente vigorosa possui melhores condições para germinar rapidamente, emergir de maneira uniforme e estabelecer uma planta capaz de enfrentar adversidades nas primeiras fases da lavoura.
Segundo os pesquisadores, a longevidade está justamente associada a essa qualidade fisiológica.
Portanto, encontrar características genéticas relacionadas à preservação dessa qualidade mesmo diante do ataque de percevejos pode abrir uma nova frente de seleção.

ISSO VAI ACABAR COM O USO DE INSETICIDAS?
Não.
E os próprios pesquisadores fazem questão de destacar esse ponto.
A descoberta não significa que o produtor poderá abandonar o monitoramento ou o controle químico.
O objetivo é incorporar a resistência ou tolerância genética como mais uma ferramenta dentro do Manejo Integrado de Pragas (MIP).
O cenário ideal combina diferentes estratégias:
melhoramento genético;
monitoramento das populações;
controle biológico;
manejo agronômico;
e inseticidas utilizados quando realmente necessários.
Quanto maior a tolerância natural da planta, menor poderá ser a pressão para realizar aplicações exclusivamente como resposta ao ataque.
REDUZIR APLICAÇÕES PODE SIGNIFICAR REDUZIR CUSTOS
Esse ponto torna a pesquisa particularmente interessante para o produtor.
Cada aplicação representa custos.
Existe o valor do produto, combustível, operação das máquinas, mão de obra e desgaste dos equipamentos.
Além disso, aplicações excessivas podem aumentar a pressão de seleção sobre as populações de insetos e comprometer organismos benéficos.
Por isso, desenvolver plantas naturalmente mais tolerantes pode gerar benefícios econômicos e ambientais.
A própria equipe ressalta que o melhoramento não deverá eliminar completamente os inseticidas, mas poderá facilitar o manejo, reduzir custos e diminuir impactos ambientais.
UMA TECNOLOGIA PARTICULARMENTE INTERESSANTE PARA O MATOPIBA
Embora os experimentos tenham sido realizados em São Paulo, o desenvolvimento merece atenção dos produtores do MATOPIBA.
Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia possuem milhões de hectares ocupados por soja.
Regiões de temperaturas elevadas e grandes extensões cultivadas criam ambientes nos quais o manejo eficiente de pragas possui enorme importância econômica.
Uma tecnologia capaz de reduzir perdas ou diminuir a necessidade de intervenções pode ganhar escala rapidamente quando aplicada sobre milhares de hectares.
Mas será necessário avançar nas pesquisas e testar materiais em diferentes ambientes produtivos antes de qualquer conclusão específica para o Cerrado do MATOPIBA.
A RESISTÊNCIA A PERCEVEJOS NÃO COMEÇOU AGORA
Também é importante contextualizar a descoberta.
Pesquisas brasileiras buscando resistência genética da soja aos percevejos existem há décadas.
Trabalhos do Instituto Agronômico (IAC), por exemplo, já avaliavam linhagens resistentes ainda nas safras de 1980/81 e 1981/82.
A novidade está no avanço da seleção e na análise de características que podem ajudar a construir materiais mais estáveis em diferentes ambientes.
É assim que funciona o melhoramento genético.
Uma descoberta isolada raramente transforma imediatamente uma lavoura.
Pesquisadores identificam características desejáveis, realizam cruzamentos, selecionam materiais, testam desempenho em diferentes ambientes e avançam sucessivamente até que uma cultivar comercial possa eventualmente surgir.
AINDA NÃO EXISTE UMA NOVA CULTIVAR COMERCIAL
Essa é a principal ressalva para interpretar a notícia corretamente.
Os pesquisadores não anunciaram o lançamento de uma cultivar comercial de soja resistente a percevejos.
Foram identificadas linhagens tolerantes que poderão ser utilizadas no desenvolvimento de materiais futuros.
Portanto, ainda existe um caminho científico e agronômico antes que essa característica eventualmente chegue em escala às propriedades.
Mas o potencial é relevante.
O Brasil é um dos maiores produtores de soja do planeta e qualquer tecnologia capaz de reduzir perdas, aplicações ou custos pode produzir impactos bilionários quando multiplicada pela dimensão da área cultivada.
A PRÓPRIA PLANTA PODE SE TORNAR PARTE DO CONTROLE
Durante décadas, o combate às pragas esteve fortemente associado ao que o produtor aplicava sobre a lavoura.
A evolução do melhoramento está ampliando essa lógica.
Parte da proteção pode começar dentro da própria genética da planta.
A identificação dessas quatro linhagens não elimina os percevejos e tampouco torna os inseticidas desnecessários.
Mas abre caminho para algo estrategicamente mais interessante:
uma soja capaz de suportar melhor o ataque e trabalhar junto com as demais ferramentas do Manejo Integrado de Pragas.
Se esse potencial conseguir avançar dos experimentos para futuras cultivares comerciais, o resultado poderá significar menos perdas, manejo mais eficiente e uma nova ferramenta para reduzir a dependência do controle químico nas lavouras brasileiras.
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