Governo americano estuda ampliar isenções para pequenas refinarias em tentativa de aliviar preços dos combustíveis; produtores rurais e indústria de biocombustíveis alertam para impacto sobre a demanda agrícola.
Uma decisão que está sendo discutida em Washington pode atravessar as refinarias americanas e chegar diretamente às lavouras.
O governo dos Estados Unidos avalia ampliar as chamadas isenções para pequenas refinarias dentro do Renewable Fuel Standard (RFS), política que estabelece volumes de combustíveis renováveis que precisam ser incorporados ao mercado americano.
O objetivo é reduzir parte da pressão sobre as refinarias e contribuir para conter os preços dos combustíveis.
Mas existe outro lado.
O agronegócio americano teme perder mercado.
Produtores e representantes da indústria de biocombustíveis argumentam que uma ampliação das isenções pode diminuir a quantidade de etanol e outros combustíveis renováveis efetivamente demandados.
E menos biocombustível pode significar:
MENOS DEMANDA POR PRODUTOS AGRÍCOLAS.
PETRÓLEO DE UM LADO, AGRONEGÓCIO DO OUTRO
O dilema é relativamente simples.
Refinarias querem maior flexibilidade para cumprir as exigências relacionadas aos biocombustíveis.
Produtores rurais querem preservar o mercado criado pelas políticas de mistura.
No centro dessa disputa está o consumidor americano e o preço pago pelo combustível.
A Casa Branca pediu aos reguladores ambientais que avaliem formas de permitir que pequenas refinarias utilizem menos biocombustíveis do que inicialmente projetado, segundo informações publicadas nesta semana.
A medida ganhou relevância diante das preocupações do governo com os preços dos combustíveis.
POR QUE ISSO É TÃO IMPORTANTE PARA O MILHO?
Porque nos Estados Unidos existe uma ligação gigantesca entre agricultura e combustível.
Parte expressiva do milho americano não termina diretamente em alimentos.
Termina em:
etanol.
As usinas transformam o cereal em combustível renovável, criando um mercado estrutural para milhões de toneladas produzidas pelos agricultores.
Isso significa que políticas energéticas americanas também funcionam, na prática, como políticas de demanda agrícola.
Se a utilização de etanol aumenta, cresce a necessidade de matéria-prima.
Se diminui, parte dessa demanda pode desaparecer.
O TAMANHO DAS ISENÇÕES PODE QUASE DOBRAR
A discussão atual chamou atenção justamente pela escala.
Segundo fontes ouvidas pela Reuters, as possíveis isenções poderiam passar do equivalente a aproximadamente 990 milhões para 1,8 bilhão de créditos de combustíveis renováveis (RINs).
O efeito exato dependerá da forma como a política for implementada.
Mas produtores e representantes do setor de biocombustíveis reagiram.
Uma coalizão que inclui organizações agrícolas e de combustíveis renováveis pressionou o governo para limitar as dispensas e preservar os volumes originalmente projetados.
GOVERNO ESTUDA UMA COMPENSAÇÃO
Existe, entretanto, uma alternativa sendo considerada.
Para reduzir o impacto sobre os agricultores, autoridades americanas avaliam compensar parte das novas isenções aumentando as exigências futuras de biocombustíveis.
Uma das possibilidades discutidas seria acrescentar aproximadamente:
500 MILHÕES DE GALÕES
às cotas de biocombustíveis previstas para 2027.
Na prática, seria uma tentativa de equilibrar dois interesses.
De um lado, aliviar refinarias agora.
Do outro, preservar demanda futura para o setor agrícola.
Ainda não existe uma decisão final.
A DISPUTA MOSTRA COMO ENERGIA E AGRICULTURA SE TORNARAM INSEPARÁVEIS
Durante décadas, petróleo e agricultura eram mercados analisados quase separadamente.
Isso mudou.
Milho vira etanol.
Soja vira biodiesel.
Gorduras animais podem virar combustível.
Óleos vegetais entram em diesel renovável.
Resíduos agrícolas podem gerar energia.
O tanque de combustível começou a disputar matérias-primas que antes eram analisadas principalmente pela ótica da alimentação.
Por isso, uma decisão tomada por uma agência ambiental americana pode acabar influenciando o preço recebido pelo agricultor.
E O QUE ISSO TEM A VER COM O MATOPIBA?
Muito mais do que parece.
O produtor brasileiro não precisa vender milho diretamente para uma refinaria americana para sentir os efeitos de uma mudança na política de biocombustíveis dos Estados Unidos.
Os EUA estão entre os maiores produtores e exportadores de milho do planeta.
Se a demanda doméstica americana pelo cereal mudar significativamente, o balanço entre:
produção + consumo + estoques + exportações
também muda.
E isso pode chegar às cotações internacionais.

MAIS MILHO DISPONÍVEL PODE SIGNIFICAR MAIS COMPETIÇÃO
Em um cenário hipotético no qual a indústria americana de etanol demandasse menos milho e essa redução não fosse compensada posteriormente, uma quantidade maior do cereal poderia permanecer disponível.
Parte poderia aumentar estoques.
Parte poderia buscar exportação.
Isso aumentaria a competição internacional.
E o Brasil também é um importante exportador de milho.
Consequentemente, produtores brasileiros precisam acompanhar não apenas:
clima nos Estados Unidos;
área plantada;
produtividade;
estoques;
exportações.
Também precisam acompanhar:
POLÍTICA ENERGÉTICA.
O BRASIL TAMBÉM APROXIMA CADA VEZ MAIS AGRO E ENERGIA
Esse debate americano possui um paralelo interessante com o Brasil.
Aqui, o mercado de biocombustíveis também vem criando novas oportunidades para produtos agrícolas.
O etanol de milho ganhou escala principalmente no Centro-Oeste.
Novas plantas industriais vêm alterando o mercado regional do cereal.
Além do etanol, existe geração de coprodutos destinados à alimentação animal.
Ou seja, o milho deixa de ser apenas commodity agrícola e passa a alimentar uma cadeia industrial de energia.
ESSA TRANSFORMAÇÃO PODE CHEGAR CADA VEZ MAIS PERTO DO MATOPIBA
Para uma região produtora de grãos, industrialização significa algo importante:
demanda local.
Quando uma indústria se instala próxima das áreas produtoras, parte do grão que antes precisava viajar grandes distâncias pode encontrar consumidor dentro da própria região.
Isso pode transformar a dinâmica de preços, logística e comercialização.
O debate americano mostra justamente o valor estratégico dessa demanda industrial.
Quando produtores percebem que ela pode ser reduzida, a reação é imediata.
BIOCOMBUSTÍVEIS VIRARAM POLÍTICA AGRÍCOLA
Essa talvez seja a principal lição.
Um programa criado para reduzir o uso de combustíveis fósseis pode simultaneamente:
criar demanda por milho;
sustentar usinas;
gerar empregos rurais;
movimentar transporte;
produzir coprodutos;
e alterar preços agrícolas.
Por isso, a discussão nos Estados Unidos deixou de ser apenas ambiental.
Virou uma questão econômica e política para o chamado Farm Belt, o cinturão agrícola americano.
O GOVERNO PRECISA EQUILIBRAR DOIS SETORES PODEROSOS
De um lado está a indústria petrolífera.
Do outro, agricultores e produtores de biocombustíveis.
Os dois possuem enorme peso econômico.
A administração americana tenta encontrar uma solução que ajude a controlar os custos dos combustíveis sem provocar uma queda significativa na demanda agrícola.
É uma equação difícil.
Porque qualquer benefício concedido a um lado pode gerar perdas para o outro.
A DECISÃO PODE SAIR EM BREVE
A expectativa é que uma definição sobre as isenções possa ocorrer até o fim de agosto.
Por isso, o mercado deverá acompanhar três pontos principais:
1. Quantas isenções serão concedidas às refinarias.
2. Quanto da demanda por biocombustíveis poderá efetivamente desaparecer.
3. Se o governo compensará esse volume aumentando as exigências futuras.
O terceiro ponto será particularmente importante.
Se houver compensação integral, o impacto estrutural sobre a demanda agrícola poderá ser reduzido.
Caso contrário, o mercado terá de recalcular o consumo americano de matérias-primas para biocombustíveis.
O PRODUTOR DO MATOPIBA PRECISA OLHAR ALÉM DA LAVOURA
Esse caso ilustra como o mercado agrícola mundial se tornou complexo.
O preço do milho produzido no Cerrado brasileiro pode ser influenciado por:
uma seca na China;
uma safra recorde nos Estados Unidos;
o câmbio brasileiro;
uma guerra;
fretes marítimos;
estoques mundiais;
e até uma decisão regulatória sobre refinarias americanas.
É por isso que produzir bem é apenas uma parte do negócio agrícola moderno.
Entender mercado tornou-se tão importante quanto entender produtividade.
E neste momento, uma disputa entre petróleo e agricultura nos Estados Unidos merece entrar no radar do produtor brasileiro.
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