Conab reduz produção brasileira para 5,8 milhões de toneladas; importações podem atingir 7,1 milhões e alcançar o maior patamar desde a safra 2006/07.
O Brasil caminha para uma situação incomum em uma das cadeias mais importantes para a alimentação nacional: o país poderá importar mais trigo do que produzir internamente no novo ano-safra.
O 11º Levantamento da Safra de Grãos, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) nesta quinta-feira, 13 de agosto, reduziu novamente a projeção para a produção brasileira de trigo em 2026.
Agora, a estimativa é de aproximadamente 5,8 milhões de toneladas.
Ao mesmo tempo, a Conab projeta que as importações brasileiras no ano-safra 2026/27 poderão alcançar 7,103 milhões de toneladas.
Ou seja: caso as projeções se confirmem, o Brasil poderá comprar no exterior aproximadamente 1,3 milhão de toneladas a mais do que produzirá dentro do próprio país.
Produção deve cair mais de 26%
A dimensão da retração chama atenção.
A estimativa atual representa uma queda de aproximadamente 26,2% na produção em comparação ao ciclo anterior.
Um dos principais fatores está na redução da área cultivada.
Segundo a Conab, o plantio do cereal recuou aproximadamente 20,4%, reflexo de uma combinação de menor atratividade econômica, custos de produção e preocupações climáticas.
O movimento é especialmente importante porque o trigo brasileiro está fortemente concentrado na Região Sul.
Rio Grande do Sul e Paraná são os grandes protagonistas nacionais da cultura e, consequentemente, decisões dos produtores desses estados possuem impacto direto sobre a disponibilidade do cereal no restante do país.
Importações podem atingir maior nível em quase 20 anos
Com menos trigo sendo produzido dentro do Brasil, a necessidade de buscar produto no mercado internacional aumenta.
A Conab estima importações de 7,103 milhões de toneladas no ciclo 2026/27, crescimento superior a 20% em relação ao ano-safra anterior.
Se confirmado, será o maior volume importado pelo Brasil desde 2006/07, quando foram adquiridas aproximadamente 7,164 milhões de toneladas.
A comparação mostra que o país poderá chegar muito perto do recorde histórico da série acompanhada pela estatal.
Argentina volta ao centro da estratégia brasileira
A maior parte do trigo importado pelo Brasil tradicionalmente vem da Argentina.
A proximidade geográfica, a integração comercial do Mercosul e a escala da produção argentina tornam o país o fornecedor natural para os moinhos brasileiros.
Paraguai e Uruguai também participam desse mercado.
Mas outro país vem ganhando importância: a Rússia.
Com a redução da oferta doméstica, fornecedores do Hemisfério Norte podem ganhar espaço durante determinados períodos do ano, aumentando a diversificação das origens do trigo consumido no Brasil.

El Niño entrou na decisão dos produtores
Outro elemento importante está no clima.
Produtores do Paraná e Rio Grande do Sul consideraram a possibilidade de ocorrência de um El Niño forte durante a tomada de decisão sobre o plantio.
Historicamente, o fenômeno pode aumentar a ocorrência de chuvas no Sul do Brasil.
Para culturas de inverno, excesso de precipitação em momentos críticos pode comprometer produtividade e, principalmente, qualidade dos grãos.
Diante desse risco e de margens menos atrativas, parte dos produtores decidiu reduzir a área destinada ao trigo.
Menos trigo não significa necessariamente falta do produto
É importante fazer uma distinção.
A redução da safra brasileira não significa que o país ficará sem trigo.
O Brasil historicamente depende de importações para complementar sua produção doméstica.
O que muda agora é a dimensão dessa dependência.
Com apenas 5,8 milhões de toneladas previstas dentro do país e mais de 7 milhões potencialmente chegando do exterior, o mercado brasileiro ficará ainda mais exposto às condições internacionais.
Câmbio, preço do trigo argentino, disponibilidade logística e qualidade das safras dos países fornecedores passam a ter peso ainda maior.
Por que isso importa para quem não produz trigo?
O impacto da cultura vai muito além das propriedades rurais do Sul.
Trigo é matéria-prima fundamental para farinha, pão, massas, biscoitos e uma extensa cadeia da indústria alimentícia.
Quando uma parcela maior do abastecimento depende de importações, oscilações do dólar e do mercado internacional podem exercer influência sobre os custos dos moinhos brasileiros.
Isso não significa automaticamente aumento imediato do pão nas prateleiras, porque o preço final envolve diversos outros componentes.
Mas amplia a exposição da cadeia brasileira às condições externas.
Um contraste dentro da safra recorde brasileira
Talvez o aspecto mais interessante seja que essa queda acontece enquanto a agricultura brasileira, no conjunto, vive um cenário completamente diferente.
No mesmo levantamento, a Conab elevou a estimativa da safra brasileira de grãos 2025/26 para aproximadamente 360,8 milhões de toneladas, estabelecendo um novo recorde nacional.
Ou seja:
o Brasil nunca produziu tantos grãos, mas deverá produzir significativamente menos trigo.
Isso demonstra como olhar apenas para o número total da safra pode esconder realidades completamente diferentes entre as culturas.
Soja e milho avançam em escala e produção.
Enquanto isso, o trigo perde área e aumenta a dependência externa.
Uma decisão econômica tomada dentro da fazenda
A redução do trigo também evidencia como produtores respondem rapidamente aos sinais econômicos.
Quando determinada cultura oferece retorno insuficiente diante dos riscos envolvidos, a tendência é que parte da área migre para alternativas mais rentáveis.
Essa decisão individual, repetida por milhares de produtores, pode modificar toda uma cadeia nacional.
Foi exatamente isso que ocorreu com o trigo.
A queda de área ajuda a levar a produção brasileira para 5,8 milhões de toneladas, enquanto o país se prepara para importar aproximadamente 7,1 milhões.
Se as projeções forem confirmadas, 2026/27 ficará marcado por um paradoxo importante no agronegócio brasileiro:
em plena safra recorde de grãos, o Brasil poderá registrar sua maior dependência de trigo estrangeiro em quase duas décadas.
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