Estudo da Embrapa mostra que a Beauveria bassiana altera compostos liberados pela planta e aumenta a atração de uma vespa que parasita ovos do percevejo-barriga-verde. Tecnologia ainda precisa ser validada no campo, mas pode ganhar importância em regiões produtoras de soja e milho, como o MATOPIBA.
Uma interação quase invisível entre fungo, milho, percevejo e uma pequena vespa parasitoide pode se transformar em uma nova ferramenta para o manejo de uma das pragas que preocupam os produtores de grãos.
Pesquisadores da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia descobriram que a aplicação de uma linhagem do fungo benéfico Beauveria bassiana nas folhas do milho é capaz de modificar os compostos voláteis emitidos pela planta.
Na prática, é como se o milho passasse a emitir um “sinal químico” diferente.
Essa alteração aumenta a atração da pequena vespa Telenomus podisi, inimiga natural que parasita os ovos do percevejo-barriga-verde (Diceraeus melacanthus), impedindo que novos indivíduos da praga completem seu desenvolvimento.
Os resultados foram divulgados pela Embrapa em 30 de junho de 2026 e publicados no periódico científico Journal of Pest Science. O trabalho é resultado de aproximadamente cinco anos de pesquisa.
O PROBLEMA COMEÇA NA TRANSIÇÃO ENTRE SOJA E MILHO
A descoberta merece atenção especialmente em regiões onde soja e milho fazem parte do mesmo sistema produtivo.
Segundo a Embrapa, os maiores prejuízos provocados pelo percevejo-barriga-verde ocorrem justamente em áreas de Sistema Plantio Direto com rotação entre soja e milho.
Depois da colheita da soja, o inseto pode migrar para o milho recém-estabelecido. O período inicial é particularmente sensível: o ataque acontece sobre plantas jovens, principalmente durante a primeira e a segunda semanas após o início da germinação.
Ao se alimentar da planta, o percevejo utiliza seu aparelho bucal para perfurar os tecidos e pode comprometer seriamente o desenvolvimento inicial da cultura.
A consequência pode aparecer posteriormente em plantas deformadas, perfilhamento anormal, redução de desenvolvimento e, dependendo da intensidade da infestação, perdas produtivas.
A Embrapa informa que esse ataque precoce pode provocar perdas de até 30% na produtividade do milho.
É justamente esse cenário que torna a pesquisa especialmente interessante para sistemas intensivos de produção de grãos.
O FUNGO JÁ ERA UM AGENTE DE CONTROLE — MAS A PESQUISA ENCONTROU ALGO A MAIS
A Beauveria bassiana é um fungo entomopatogênico, ou seja, possui capacidade de infectar determinados insetos e já é utilizada como agente de controle biológico.
Mas os pesquisadores investigaram uma interação mais complexa.
A equipe trabalhou com a linhagem CG 1105, pertencente ao banco de microrganismos mantido pelo laboratório de micologia da Embrapa.
Inicialmente, a aplicação do fungo nas plantas de milho tinha como objetivo explorar seu efeito sobre o próprio percevejo.
O experimento, porém, revelou um segundo mecanismo.
Após aproximadamente cinco dias da pulverização foliar, os pesquisadores observaram que o fungo havia colonizado a planta de maneira benéfica e modificado sua composição de compostos orgânicos voláteis.
Esses compostos funcionam, de maneira simplificada, como parte da comunicação química existente na natureza.
E foi justamente essa mudança que chamou a atenção dos cientistas.
MILHO PASSA A EMITIR UM “PERFUME” DIFERENTE
Entre as alterações encontradas, houve aumento na produção de salicilato de metila, composto associado na literatura científica à atração de inimigos naturais de pragas.
Ao mesmo tempo, ocorreu redução na emissão de alfa-farneseno, outro composto volátil produzido pela planta.
Essa nova combinação química modifica aquilo que os pesquisadores chamam de “buquê” de aromas da planta.
Para seres humanos, essas alterações podem passar completamente despercebidas.
Para determinados insetos, entretanto, os compostos químicos liberados pelas plantas funcionam como importantes fontes de informação sobre o ambiente.
Foi nesse ponto que apareceu uma das descobertas centrais do estudo.
A mudança provocada pela associação entre fungo e milho tornou as plantas mais atrativas para a vespa Telenomus podisi.
UMA VESPA MINÚSCULA ENTRA NA EQUAÇÃO
A Telenomus podisi é um parasitoide de ovos.
Isso significa que, em vez de simplesmente atacar o percevejo adulto, ela atua em uma etapa anterior do ciclo da praga.
A fêmea localiza os ovos depositados pelo percevejo e realiza o parasitismo. A partir daí, o desenvolvimento do percevejo é interrompido.
O resultado é estratégico:
menos ovos viáveis significam menos percevejos chegando às fases seguintes do ciclo.
A pesquisa indica que a alteração química provocada pelo fungo pode facilitar justamente a localização desses ambientes pela vespa.
Portanto, a Beauveria bassiana pode exercer uma função dupla dentro desse sistema: além de seu potencial como agente de controle biológico, sua interação com o milho modifica os sinais químicos emitidos pela planta e favorece a atuação de outro inimigo natural.
É uma abordagem diferente de simplesmente encontrar uma substância capaz de matar uma praga.
A estratégia busca fazer diferentes componentes biológicos trabalharem de maneira integrada.
POR QUE ISSO PODE SER IMPORTANTE PARA O MATOPIBA?
Embora o estudo não tenha sido realizado especificamente no MATOPIBA, a estrutura produtiva da região torna os resultados relevantes para acompanhamento.
Soja e milho estão entre as culturas que sustentam grandes sistemas agrícolas de Bahia, Maranhão, Piauí e Tocantins.
Além disso, a sucessão e a rotação entre culturas criam uma dinâmica em que determinadas pragas conseguem permanecer no ambiente agrícola mesmo após a colheita de uma cultura.
O próprio percevejo-barriga-verde consegue utilizar diferentes hospedeiros. Um trabalho apresentado na 40ª Reunião de Pesquisa de Soja de 2026 descreve Diceraeus melacanthus como uma das pragas emergentes importantes das culturas de grãos na América do Sul e registra sua capacidade de se alimentar de culturas como milho, soja e arroz.
Isso significa que o problema não deve necessariamente ser analisado isoladamente dentro de apenas uma cultura.
Em sistemas agrícolas de grande escala, o manejo precisa considerar também aquilo que acontece antes e depois da cultura presente na área.
CONTROLE BIOLÓGICO PODE GANHAR UMA NOVA CAMADA
A pesquisa também mostra como o controle biológico está se tornando tecnologicamente mais sofisticado.
Durante muito tempo, uma visão simplificada poderia resumir o processo à utilização de um organismo para controlar outro.
A ciência está avançando para compreender as interações entre vários organismos simultaneamente.
Nesse caso:
fungo → modifica a planta → planta altera seus compostos voláteis → vespa detecta os sinais → vespa encontra os ovos → população da praga pode ser reduzida.
Essa cadeia ajuda a explicar por que áreas como ecologia química, microbiologia, entomologia e biotecnologia estão se aproximando cada vez mais dentro da pesquisa agrícola.
O objetivo final não é necessariamente substituir todas as ferramentas existentes, mas ampliar as opções disponíveis dentro do Manejo Integrado de Pragas (MIP).
MENOS DEPENDÊNCIA DE UMA ÚNICA FERRAMENTA DE CONTROLE
Esse aspecto é particularmente importante porque depender excessivamente de uma única estratégia pode trazer problemas no longo prazo.
O MIP trabalha justamente com a combinação racional de diferentes ferramentas — monitoramento, níveis de ação, controle biológico, manejo cultural, tecnologias genéticas e, quando necessário, controle químico.
A própria Embrapa mantém pesquisas paralelas buscando novas formas de enfrentar percevejos.
Em 2026, por exemplo, pesquisadores apresentaram trabalho sobre silenciamento gênico por RNAi no percevejo-barriga-verde, outra frente biotecnológica que busca compreender alternativas para o manejo da praga.
São caminhos científicos diferentes, mas que mostram a intensidade da busca por soluções capazes de tornar o controle mais preciso e sustentável.
A TECNOLOGIA AINDA NÃO ESTÁ PRONTA PARA A LAVOURA
Há, entretanto, uma ressalva fundamental.
Os resultados divulgados até agora foram obtidos em bioensaios e análises conduzidos em condições controladas de laboratório.
Isso significa que o estudo demonstra um mecanismo biologicamente promissor, mas ainda não autoriza concluir que o produtor obterá exatamente o mesmo resultado em uma lavoura comercial.
No campo existem variáveis muito mais complexas: temperatura, umidade, radiação solar, chuva, população dos insetos, interação com outros organismos, manejo realizado anteriormente e características próprias de cada ambiente.
É por isso que a próxima etapa será decisiva.
Segundo a Embrapa, a intenção dos pesquisadores é levar a estratégia para testes diretamente no campo. Caso o comportamento observado em laboratório seja confirmado nas lavouras, a pesquisa poderá contribuir para a elaboração de um novo protocolo de Manejo Integrado de Pragas.
O QUE O PRODUTOR DEVE OBSERVAR A PARTIR DE AGORA
Ainda não se trata, portanto, de uma recomendação para aplicação comercial específica baseada nesse estudo.
O ponto mais importante neste momento é acompanhar a evolução dos testes.
Se os resultados forem reproduzidos em condições agrícolas reais, a descoberta poderá abrir espaço para estratégias que não atuem somente sobre a praga, mas também estimulem a própria planta a favorecer seus aliados naturais.
Para regiões de agricultura intensiva como o MATOPIBA, tecnologias capazes de integrar controle biológico ao manejo de grandes áreas podem adquirir importância econômica significativa.
O próximo passo científico será responder justamente às perguntas que interessam ao produtor: o mecanismo funciona consistentemente no campo? Em quais condições? Qual seria o protocolo? Qual a eficiência? Como integrá-lo às ferramentas já utilizadas?
São essas respostas que determinarão se uma descoberta de laboratório poderá, no futuro, transformar-se em uma ferramenta efetiva dentro das lavouras brasileiras.
Por enquanto, o estudo revela algo relevante por si só: no combate às pragas agrícolas, a ciência começa a explorar não apenas quem mata o inseto, mas como plantas, microrganismos e inimigos naturais podem ser induzidos a trabalhar juntos.
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